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Quem é Dilan Cruz, jovem morto em manifestação que virou símbolo de protestos antigoverno na Colômbia

Às 16 horas do dia 23 de novembro, forças de segurança começaram a dispersar protestos contra o governo em Bogotá, capital da Colômbia.

Os protestos contra corrupção e medidas de austeridade propostas pelo governo tiveram início na quinta-feira (21/11), quando mais de 250 mil pessoas tomaram as ruas e iniciaram uma greve nacional.

Em meio ao caos, Dilan Cruz, um jovem manifestante de 18 anos, pegou nas mãos uma bomba de gás lacrimogêneo e jogou a lata de volta àqueles que a haviam arremessado — policiais da equipe de contenção de protestos (Esmad, na sigla em espanhol).

Dilan, então, começa a correr. Quatro segundos depois, um barulho de tiro ecoa e Dilan cai no chão, inconsciente, imóvel. Vários vídeos nas redes sociais mostram dezenas de pessoas ao redor dele, em meio a gritos de “atiraram nele” e “mataram”. Até que paramédicos aparecem e tentam ressuscitar o rapaz.

Ele morreu na segunda (25) em decorrência dos ferimentos. Antes, passou dois dias na Unidade de Terapia Intensiva de um hospital de Bogotá, com trauma intracerebral, e teve duas paradas cardíacas.

“Lamentamos anunciar que, apesar dos cuidados na nossa UTI nesses dias, Dilan Cruz acaba de morrer. Nossas condolências vão para a família e as pessoas próximas a ele”, disse o hospital, em nota.

O caso de Dilan teve grande repercussão na Colômbia, especialmente depois que o vídeo mostrando Dilan no chão passou a circular nas redes sociais. Virou símbolo dos protestos — e das dezenas de acusações de abuso de poder por parte das autoridades durante as manifestações que tomaram as ruas do país na semana passada.

Símbolo dos protestos

Na tarde de segunda-feira, o nome do jovem de 18 anos era o mais mencionado do mundo no Twitter.

De acordo com a imprensa local, Dilan se formaria na escola, no centro de Bogotá, no mesmo dia em que morreu. O jovem é de uma família relativamente pobre e vivia com a mãe, o avô e duas irmãs, uma mais velha e a outra mais nova que ele.

A esquina em que o jovem foi morto se tornou um memorial para ele
A esquina em que o jovem foi morto se tornou um memorial para ele

Foto: Getty Images / BBC News Brasil

Uma delas participou da cerimônia de formatura representando o irmão e disse que ele era um “homem forte”, “inteligente” e uma pessoa que “como qualquer uma, tem seus defeitos”.

O jornal El Tiempo da Colômbia entrevistou pessoas que conheciam Dilan e que disseram que ele era um jovem feliz, que gostava de vôlei e era muito tranquilo.

Um de seus colegas informou à imprensa que Cruz estava protestando por ter tido seu empréstimo estudantil negado. Entretanto, a instituição responsável por conceder o empréstimo disse que nunca recebera o pedido.

Diferentes versões do ocorrido

Segundo o Departamento de Saúde da Colômbia, até sábado passado os protestos haviam deixado 351 manifestantes e 182 policiais feridos. O Ministro do Interior registrava três mortes — a de Dilan seria a quarta.

No domingo, centenas de pessoas realizavam uma vigília do lado de fora do hospital em apoio ao jovem.

Dezenas de jornalistas também acamparam nas proximidades, esperando por notícias sobre as lesões sofridas por Cruz.

Na rua em que Cruz levou o tiro, um cruzamento no centro da cidade que costuma ser caótico, há velas, cartazes e grafites em homenagem ao estudante.

A Procuradoria Geral abriu uma investigação e advertiu as forças de segurança sobre o uso “desproporcional” de força contra protestos pacíficos, exigindo que a Constituição fosse respeitada, já que garante que “todas as pessoas podem se reunir para protestar publicamente de maneira pacífica”.

Colegas de Dilan, do Colégio Ricaurte, seguram cartazes com a hashtag #SomosTodosDilan
Colegas de Dilan, do Colégio Ricaurte, seguram cartazes com a hashtag #SomosTodosDilan

Foto: AFP / BBC News Brasil

O presidente colombiano, Ivan Duque, disse que havia requisitado uma investigação para “esclarecer rapidamente o que aconteceu e determinar quem foi o responsável” e expressou suas condolências depois da confirmação da morte de Dilan, assim como fizeram outros políticos do país.

Mas alguns apoiadores do governo, como a senadora María Fernanda Cabal, sugeriram que os pais do jovem seriam responsáveis pelo ocorrido : “Menores de idade deveriam estar em casa naquela hora. Esse jovem foi usado por adultos perversos, para agir como um troféu de sua luta revolucionária”.

Outros defenderam a reação das forças de segurança como “proporcional”, citando, como evidência, um vídeo que mostra Cruz arremessando o cartucho de gás lacrimogêneo.

Houve também quem dissesse que a indignação pública seguiu “dois pesos e duas medidas” pela falta de simpatia manifestada sobre a morte de três policiais durante um ataque a uma delegacia na região nordeste do país — entretanto, ainda não se sabe se tal ataque teria ligação com os protestos.

Símbolo

Por causa do amplo compartilhamento de imagens de Cruz para denunciar a violência das forças de segurança, Dilan se tornou o rosto da atual onda de protestos.

O país passou as últimas horas de vida de Cruz em tensão, à espera de notícias sobre ele.

Seu caso tem dado força e inspiração ao movimento crescente que tomou as ruas da Colômbia.

Governo do presidente Ivan Duque enviou Exército para as ruas; polícia está sendo acusada de violar os direitos constitucionais dos manifestantes
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Foto: Getty Images / BBC News Brasil

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